"O Affaire Agamben Expandido"

Atualizado: Set 10


Escrito por Sergio Villalobos-Ruminott

Tradução Viviane Bagiotto Botton

Cedido pelo autor a GLAC-Edições que cedeu a Filosofias do Tempo do Agora.

Original publicado aqui.

Não que eu tenha um apreço especial pela polêmica. Porém, já que estamos nela, gostaria de lhes advertir que escrevo estas notas como reação, sem raiva nem segundas intenções, tanto à série de intervenções de Giorgio Agamben em periódicos de procedência duvidosa na península itálica, quanto à série de respostas que seus textos não cessam de produzir num público que se bem já não responde à noção kantiana de publicidade burguesa, existe patentemente na virtualidade não menos real das chamadas redes sociais. Neste sentido, é só o italiano publicar umas tantas opiniões para que elas tenham uma interessante ressonância no nível das redes, permitindo demarcar as posições num confuso universo virtual. Como um Moisés paranóico frente à sofisticação infinita do biopoder, Agamben reparte as águas do Facebook para dividir os filisteus dos crédulos, convidando-nos a uma travessia que passa pela apodítica confirmação de suas teses centrais.


Segundo ele, estaríamos encalhados num estado de exceção já prefigurado desde as origens mesmas da política ocidental. A pandemia da Covid-19 não seria mais do que um dispositivo, como o telefone, orientado a controlar a existência, suprimindo a condição inantecipável da experiência. Em tom oportuno e grave, Agamben parece seguir dando importância às medidas tomadas pelos Estados nacionais, denunciando sua obscura vocação totalitária. Claro que, para além de sua insólita coincidência com a agenda libertária de um neoliberalismo desesperado frente à desaceleração de seus processos de acumulação, teríamos que perguntar não pela pertinência de seus ensaios sobre a pandemia atual, mas pelas teses adjacentes que o levam a conhecer esta situação no horizonte imunitário de uma ordem biopolítica que parece não ter fissuras. Não é por acaso que este sólido trabalho de anos, que não se refere só ao projeto agora completo do Homo sacer, esteve no centro de vários debates contemporâneos, para o bem e para o mal.


O que é impressionante, porém, não é só a ressonância que seus juízos e previsões atuais alcançou, mas o rechaço quase generalizado que eles geraram. É como se muitas pessoas estivessem esperando o momento preciso para lhe jogar na cara o demérito de seu prestígio, de suas leituras tendenciosas, de seu protagonismo sem sentido. Ao invés de confrontar o problema em sua complexidade, atualmente podemos ler facilmente uma série de desqualificações que descreditam as mídias nas quais o italiano publica, seu uso suspeito das estatísticas, seu prestígio duvidoso na academia norte-americana, sua condição de filósofo didático, e uma série bastante interessante de argumentos ad hominem.


O que se pode fazer frente a isso? Se não tivesse nada em jogo, talvez o melhor seria se unir à alegria ébria do consenso midiático e crucificar o Agamben pela sua paranóia leitura do presente. Depois de tudo, na perfeição do negócio midiático, tudo é válido, quanto mais forte lhe atingirmos, mais sua “signature” capitaliza e aumenta a rentabilidade de suas ações. Para além das furiosas provocações, seu nome segue circulando como um Trad Mark reconhecido.


Por outro lado, tenho a impressão de que o que está em jogo é algo mais substancial e vale a pena que nos detenhamos aqui. Ou seja, esta animação contra as opiniões de Agamben sobre a pandemia não expressa um simples desacordo, mas a pretensão de uma disputa capaz de descreditar a priori um nome associado ao pensamento que está circulando, talvez de modo desmedido, nas feiras intelectuais e congressos acadêmicos durante os últimos anos. Trato de assinalar algumas dimensões que sob nenhum ponto de vista pretendem ser argumentativas, mas só indicativas do que estaria realmente em jogo no Affaire Agamben:


1. - Um confronto fundamentado com Agamben não pode ser, necessariamente, uma refutação ou uma negação, mas uma “solicitação” sistemática, rigorosa, do que ele nos vem dizendo há anos. De sua leitura schimittiana de Benjamin, de sua singular redução da desconstrução a uma hermenêutica apolítica, de sua re-teologização da política, de sua retomada do franciscanismo da pobreza, etc., mas não para indicar algum erro (questão própria do discurso filosófico universitário), senão para estremecer suas decisões e conclusões. Tão importante quanto o desenvolvimento mesmo desta interrogação, é entender que ela não pode ser, simplesmente, uma crítica em sentido moderno universitário.


1.1- Vejamos, então, que não se trata de descreditar as opiniões do Facebook como “insuficientemente acadêmicas”, passageiras ou ligeiras, mas, pelo contrário, de mostrá-las em seu profundo co-pertencimento ao discurso universitário moderno, como seu exagero e seu desvendamento, lugar onde as mediações burocráticas da universidade ficam nuas permitindo percebermos a mecânica de uma operação crítica fundada no juízo e no descarte que marcou a tradição moderna, sujeitando-a à performance de um sujeito racional que, à distância, avalia objetivamente. O fato de que o Facebook possa ser lido como parte do aparelho moderno universitário confirma, de uma forma ou de outra, não só as advertências lacanianas sobre as transformações do discurso do mestre, mas a necessidade de se pensar a “lógica” do comentário (Averróis) para além das demandas cartesianas da verdade e da dúvida metódica, questão esta que Agamben conhece, obviamente.


2) Ao mesmo tempo, também resultaria interessante se perguntar sobre o caráter sintomático não só de suas intervenções sobre a crise da Covid-19, mas das respostas, quase compulsivas, que tentam lhe refutar, derrubar, desprestigiar, e disputar com ele um suposto lugar de saber, uma certa posicionalidade discursiva que segue totalmente prisioneira em uma estruturação principal de sentido, para a qual o problema com a filosofia de Agamben não é sua tentativa de sobredeterminar a experiência (a partir de um dispositivo infalível por ser abstrato), mas o fato de que “sua” filosofia não seria a mais indicada para nos permitir a compreensão do presente, como se o problema se resolvesse ao nos depararmos com a filosofia adequada para o nosso tempo, sem questionarmos sua própria posicionalidade principal, arcôntica, archeo-teleológica. Depois de tudo, sem este questionamento an-árquico, as disputas se reduzem a brigas de comparsas, a novas políticas de amizade.


2.1. Portanto, já não é questão de encontrar “outro princípio”, mas de desligar aquilo que a palavra crítica ainda nos promete a partir de sua própria organização principal, a que organizou não tanto o pensamento, mas as narrativas universitárias encarregadas de produzir sua história. Se a interrogação derridiana do pensamento heideggeriana passa pela mesma solicitação da história do ser como “narrativa” desde sempre problemática, seja nos termos de uma história da metafísica ocidental, seja nos de sua organização epocal-principal, articulada no plexo do onto-antropo-logos, a certeza é que a solicitação derridiana não passa por um simples descarte, refutação ou rechaço, nem tampouco aspira a promoção de uma organização principal alternativa. Daqui, então, para além das raivas que as opiniões de Agamben despertam, a pergunta seria até que ponto sua genealogia biopolítica da racionalidade ocidental segue ancorada a uma narrativa “tácita", e muito operativa, relativa à organização da história teológico-política do Ocidente?— Independentemente desta narrativa “tácita" provir de Heidegger ou de Carl Schmitt— E, por outro lado, até que ponto no próprio pensamento agambeniano há elementos que des-operacionalizam esta narrativa, mostrando-a como o sempre remanescente de uma língua histórica destroçada, tal qual os pedaços de um mapa imperial abandonado no deserto, como no famoso conto de Borges sobre a cartografia?


3) Parece então que um confronto reflexivo com Agamben não poderia se limitar à impertinência de seus textos sobre a Covid-19, nem à denúncia dos meios de comunicação escrita nos quais tais textos apareceram. Arisco-me a dizer que tudo isso é secundário, quase irrelevante, exceto se formos capazes de mostrá-los como consequência de decisões complexas que aparecem num momento em que seu pensamento alcançou seu maior fulgor e, por isso mesmo, sua maior cegueira. É aí, parece-me, aonde teríamos que conduzir o assunto, à questão mesma da soberania, do poder e da experiência, que Jacques Derrida assinalou como instância central na qual pensar a experiência agambeniana. Precisamente porque o que está em jogo neste confronto não é a mera formulação paranoica de una hipótese policial baseada no ressentimento de Agamben com Derrida ou do suposto desdém ou ódio de Derrida por Agamben, porém a questão mesma da soberania, da violência e da política.


3.1. Pela mesma razão, não deixa de ser impressionante que a lógica do rechaço e da denúncia impere no lugar de um verdadeiro confronto com um pensamento fundamental da soberania e do direito, da força e da política. Não só porque Agamben foi capaz de articular uma determinada narrativa sobre a tradição do biopoder ocidental, acentuando de uma maneira específica o pensamento de Arendt, Heidegger, Schmitt, Benjamin e Foucault, mas porque nesta sua acentuação está em jogo a composição de um verosímil epocal que, além de sua eficiência e de sua pertinência, sofreu uma espécie de hipertrofia (segundo a caracterização certeira de Karmy), graças a seus usos e abusos por parte do complexo industrial-ediorial-universitário contemporâneo, que marca o ritmo das publicações, leituras e discussões num mundo quase totalmente universitarizado.


4) Minha hipótese de leitura, então, indica que na tensão entre as formas de pensar a questão da soberania, a violência e o poder, em Derrida e em Agamben, está em jogo a recepção, crítica ou não, do pensamento heideggeriano e a própria questão benjaminiana da violência divina. Porém o que se joga neste jogo, se assim se pode dizer, não é tanto a legitimidade hermenêutica ou filológica de um pensamento baseado na recuperação-traição de seus antecedentes imediatos, mas a possibilidade de se elaborar um pensamento crítico da facticidade que não se satisfaça com sua popularidade midiática, nem com sua posicionalidade arcôntica, auratizada e autorizante. Inclino-me a pensar que, se não for assim, só chegaremos a habitar a esteira aurática de uma publicidade virtual e feita por comparsas.


4.1 - Efetivamente, sem tal confrontação tenderemos a pensar o debate entre Derrida e Agamben não como o encontro e duas formas diferentes de problematizar a tradição e nossa relação com ela, mas como uma batalha entre duas marcas comerciais; uma batalhas cuidadosamente configurada pelo complexo industrial-editorial-universitário, que aos modos das disputas entre consumidores de Coca-Cola e Pepsi-Cola, não é mais do que um simulacro de uma retórica orientada a auto-abastecer a lógica da produção e a circulação de uma mercadoria. Confrontar realmente o affaire Agamben, considerando a complexidade de seu trabalho, implica, no mínimo, questionar a intelligentsia universitária identificada com a “filosofia" e ponto, como se a própria filosofia, agora sem aspas, não estivesse sempre habitada pelo desassossego constitutivo relativo às ordens do curriculum e da universidade profissional ou espiritual moderna.


Naturalmente, não seria menos irônico descobrir que o próprio Agamben se contagiou, sem saber, com o vírus. Espero que não, e claro, além das diferenças com suas análises e, inclusive, da insatisfação que se experimenta ao lê-las, o certo é que a mesma suspensão da “normalidade” imposta pela pandemia nos permite ver até que ponto as tomadas de posição e seus contemporâneos debates no Facebook, longe de ser meras questões anedóticas, são mais do que nunca, uma nova encarnação do espírito universitário do juízo e da crítica. Também é preciso pensar nisso!


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