logo fundo 2.png
ruinas cabecalho.png
logo texto escuro.png

Curso: Ética e filosofia política no tempo do agora

Atualizado: 9 de Jul de 2020

Numa iniciativa coletiva de professores/as recém-doutores, o laboratório Filosofias do tempo do agora, formado por pesquisadores/as vinculados/as a universidades no Rio de Janeiro, está oferecendo um curso de ética e filosofia política cuja renda será destinada a apoiar o projeto Maré de Sabores e remunerar os/as professores/as sem vínculo empregatício e sem vínculo como bolsistas de agências de fomento. As aulas serão ministradas por professores/as doutores/as, que, em virtude do desmantelamento e da falta de investimento no ensino público, ainda não tiveram oportunidade de se estabelecer profissionalmente: são pessoas recém-saídas do doutorado que, em virtude da pandemia de coronavírus, com as universidades fechadas e sem possibilidade de realização de concurso e seleções, encontram dificuldades de inserção no mercado de trabalho, apesar da alta qualidade de suas formações em suas áreas de especialidade. O curso também se propõe a demonstrar como a universidade pública, na área de Humanidades, tem produzido recursos humanos capazes de nos fazer refletir sobre o que chamamos, inspirados/as em Walter Benjamin, de "tempo do agora".


O curso conta com paridade de gênero entre os/as docentes e oferece 300 vagas. As aulas serão transmitidas pela plataforma Zoom às terças e quintas, de 19h às 21h30, a partir de 4 de junho, e cada aula abordará o pensamento de um/a filósofo/a para debater questões éticas e políticas que ajudem a refletir sobre o momento contemporâneo.


Metade dos recursos angariados será destinado para o projeto Maré de Sabores, onde mulheres da favela da Maré cozinham todos os dias 300 refeições para a população local desassistida. O projeto se torna ainda mais importante diante da conjuntura atual de precarização e de abandono em meio a uma crise que, se não é exclusivamente nossa, tem seus efeitos ainda mais acirrados em um país com desigualdades sociais extremas. Sabemos que o Estado, quando entra na Maré, entra armado e atirando, sendo incapaz de fornecer proteção ou assistência para uma ampla população de trabalhadores e trabalhadoras - bem como de seus filhos e netos - que mantém a cidade funcionando,a despeito de todo o descaso por parte dos governos e do poder estatal. Agradecemos a ONG Redes da Maré, responsável pelo projeto Maré de Sabores, pelo seu trabalho e por essa parceria conosco.


Um percentual dos recursos destinados a remunerar os professores/as será doado ao Fundo de Solidariedade e Apoio Mútuo do Centro Acadêmico dos alunos de Filosofia da UFRJ (https://www.facebook.com/cafil.ufrj).


A proposta é inspirada na iniciativa da professora Rita de Cássia Oliveira (UFMA), organizadora de um curso abordando pensadoras feministas para arrecadar recursos para a AMINSA (Associação de mulheres do Alto Solimões), em solidariedade aos indígenas da etnia Madijá Culina. A bem sucedida experiência articulou um curso intitulado “As pensadoras” reunindo professoras de diversas instituições brasileiras.


Título do curso: Ética e filosofia política no tempo do agora

Horário: terças e quintas, 19h/21h30, horário Brasília

Plataforma: zoom (gratuita para o/a aluno/a)

Valor: R$ 100,00

Vagas: 300

Inscrições abertas até 1/6.

Link para inscrição: bit.ly/tempodoagora


Coordenação acadêmica: Juliana de Moraes Monteiro (UFRJ/Faperj)

Coordenação executiva: Beatriz Zampieri (UFRJ)


Calendário


4/06 - “Michel Foucault e Achille Mbembe: Direito de vida e de morte, da política como biopolítica à Necropolítica”, profa. dra. Viviane Bagiotto Botton (UERJ). Mediação Juliana de Moraes Monteiro.


9/6 - Conferência: "Luto, precariedade e interdependência em Judith Butler". profa. dra. Carla Rodrigues (UFRJ/Faperj). Mediação Tássia Áquila e Ana Luiza Gussen.


11/6 - Conferência: "Um mundo coberto de alvos". Paulo Arantes (USP). Mediação Carla Rodrigues, Juliana de Moraes Monteiro e Gabriel Ponciano.


16/6 - "Para uma crítica da violência: Walter Benjamin e o tempo do agora", profa. dra. Isabela Pinho (UFRJ) . Mediação Beatriz Zampieri.


18/6 - "Estado de exceção como paradigma de governo em Giorgio Agamben", prof. dr. Pedro Oliveira (UFRJ). Mediação Beatriz Zampieri


23/6 - "Zizek: Do Occupy ao coronavírus" - prof. dr. Gabriel Lisboa (UFRJ). Mediação Luís Felipe Pinheiro Noronha Teixeira.

25/6- “A formação da subjetividade e suas consequências éticas e políticas em Simone de Beauvoir" - prof. Dr. Nathan Menezes (UFRJ). Mediação Ana Luiza Gussen.


30/6 - "Jacques Rancière e a linguagem do dissenso", prof. dr. Victor Galdino (UFRJ). Mediação Caio Figueiredo.

2/7 - “Silvia Federici: mulheres, trabalho doméstico, capitalismo – quantas formas de queimar?”. profa. dra. Danielle Magalhães (UFRJ). Mediação Ana Emília Lobato.


7/7 - “Derrida e a Universidade: estar no mundo que tentamos pensar”. prof. dr. Guilherme Cadaval (UFRJ). Mediação Ana Emilia Lobato


9/7 - Aula de encerramento: “Lélia Gonzalez , leitora de Freud e Lacan: a psicanálise como uma ética antirracista”, profa. dra. Juliana de Moraes Monteiro (UFRJ/Faperj). Mediação Rafael Cavalheiro.


Programa


Quinta-feira, 04 de junho

Michel Foucault e Achille Mbembe: Direito de vida e de morte, da política como biopolítica à Necropolítica

Nossa aula tem por objetivo trabalhar o desenvolvimento do conceito de biopolítica elaborado por Michel Foucault e que aparece no último capítulo de seu livro “História da Sexualidade I, A Vontade de Saber”. A ênfase da abordagem são as circunstâncias textuais e contextuais que levam a tal elaboração, em especial no que diz respeito aos dispositivos de vigilância e controle dos corpos e que culminam numa política da vida. Tomando como ponto de partida os estudos genealógicos de Foucault sobre o panoptismo enquanto paradigmático de um novo modo de soberania política, que se caracteriza como pastoral, o conceito de biopolítica aparece como ferramenta de inteligibilidade possível para pensarmos as políticas de vida e de morte no nosso tempo do agora e nos leva à reformulação desta categoria por Achille Mbembe com a proposta de leitura da política como Necropolítica. O referido capítulo do livro de Foucault e o texto das conferências do livro "Necropolítica" de Mbembe são a bibliografia essencial para esta aula. Outras referências de apoio mais recentes também serão utilizadas e estão indicadas na bibliografia do curso.

Viviane Bagiotto Botton é graduada e mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e é doutora em Filosofia pela Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), onde trabalho as relações entre corpo e subjetividade na obra de Michel Foucault. Ela já foi professora e pesquisadora em diferentes universidades e escolas nacionais e internacionais e atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado na área da filosofia e da história da saúde na UERJ, onde desenvolve um trabalho sobre a Histeria enquanto diagnóstico psiquiátrico "feminino" e sua operacionalidade no Brasil no contexto de uma psiquiatria nacional surgida concomitantemente com a República.


Terça-feira, 9 de junho: Luto, precariedade e interdependência em Judith Butler, conferência Carla Rodrigues

A distribuição desigual do luto público é demanda ética da universalização do direito ao luto como mecanismo político de afirmar o valor de toda vida, porque toda vida está exposta à morte. Privilegiaremos elementos na filosofia de Butler que possam nos colocar em debate com dilemas presentes no cenário atual em que a pandemia da COVID-19 expõe uma vulnerabilidade global e, ao mesmo tempo, desvela outros processos mais vulneráveis de vidas mais marcadas precariamente.

Carla Rodrigues é professora de ética no Departamento de Filosofia da UFRJ, pesquisadora do programa de pós-graduação em filosofia da UFRJ e bolsista de produtividade da Faperj. É coordenadora do laboratório Filosofias do tempo do agora.



Quinta-feira, 11 de junho: Um mundo coberto de alvos, conferência Paulo Arantes (USP)


Doutor em Filosofia pela Université de Paris X, Nanterre (1973). Foi editor da revista Discurso (1976-1991). É professor aposentado Senior do Departamento de Filosofia da FFLCH da USP. Desde 1980 PQ1A do CNPq. Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em História da Filosofia e Filosofia Política, atuando principalmente nos seguintes temas: Filosofia clássica alemã, Filosofia francesa contemporânea, Filosofia no Brasil, Cultura e Sociedade brasileira, Teoria Crítica do mundo contemporâneo.


Terça-feira, 16/06

Para uma crítica da violência: Walter Benjamin e o tempo do agora


Nossa aula partirá do ensaio “Para uma crítica da violência” (1921) de Walter Benjamin

para refletir sobre os limites do Estado na tarefa de conter/monopolizar sua violência

constitutiva. Como o texto de Benjamin pode nos ajudar a refletir sobre a democracia

brasileira contemporânea? Essa é a questão norteadora de nossa aula-debate.


Isabela Pinho é graduada e mestre em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense

(UFF) e doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi

pesquisadora visitante na Universidade de Munique (LMU) e nos Arquivos Walter

Benjamin em Berlim. Autora de Tagarelar (schwätzen): itinerários entre linguagem e feminino (Relicário/PUC-Rio, prelo) e coorganizadora de AGAMBiarra: escritos sobre a filosofia de

Giorgio Agamben (Ape’ku, 2020). Oferece cursos de extensão de Filosofia e Literatura

na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).



Quinta-feira, 18 de junho

Estado de exceção como paradigma de governo em Giorgio Agamben


Nossa aula tem por objeto o conceito de estado de exceção a partir do capítulo “O estado de exceção como paradigma de governo” (Estado de exceção, 2003), do filósofo italiano Giorgio Agamben. Nosso principal objetivo será refletir sobre como a exceção se torna a regra nos Estados democráticos de direito e, assim, tornar inteligível nosso momento atual.


Pedro Oliveira é graduado em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É mestre em Filosofia pela UFF e doutor em Filosofia pela UFRJ. É autor de Mais além da lei: direito e messianismo em Giorgio Agamben (Ed. Apek’u, 2020, prelo) e advogado.


Terça-feira, 23 de junho

Do Occupy ao coronavírus


A aula partirá de uma apresentação comparativa das análises feitas por Slavoj Žižek da crise financeira e dos movimentos populares contestatórios do começo da década, e dos efeitos sociopolíticos do coronavírus. Tal apresentação nos servirá de base para pensarmos, a partir da obra do filósofo esloveno, a crise que assola nosso mundo e as possibilidades que dela podem surgir.


Gabriel Ponciano é bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.


Quinta-feira, 25 de junho

A formação da subjetividade e suas consequências éticas e políticas em Simone de Beauvoir


O curso pretende apresentar a concepção de Simone de Beauvoir sobre a constituição do sujeito e as implicações éticas e políticas que daí decorrem, dando destaque às características da ambiguidade, da interdependência e ao vínculo de enraizamento que a subjetividade possui com seu contexto social. A partir destas considerações proponho discutir como o horizonte teórico oferecido por Beauvoir pode ser mobilizado para pensarmos a atualidade.


Nathan Menezes Amarante Teixeira é graduado e mestre em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


Terça-feira, 30 de junho

Jacques Rancière e a linguagem do dissenso.


“A essência da política é a manifestação do dissenso, como presença de dois mundos em um” (Dez teses sobre política). A partir dessa formulação, pretendo apresentar três conceitos de J. Rancière — dissenso, política e partilha do sensível — e seus modos de apropriação e uso, assim como sua pertinência para o presente. Para isso, serão feitas algumas elaborações sobre o que chamo de “linguagem do dissenso” enquanto forma possível de uso filosófico da linguagem, e também sobre seus efeitos pretendidos e o modo de seu funcionamento, usando como exemplo o próprio texto de Rancière. Em geral, a ideia é mostrar um tipo de discurso filosófico que opera como jogo imagético e visa afetar o modo como as coisas aparecem para nós em dado momento, de maneira que não podemos compreendê-lo a partir de sua aparência descritiva e dos compromissos com o “verdadeiro” que outros discursos filosóficos normalmente carregam. Dessa forma, podemos pensar os usos do que seria uma “filosofia de Rancière” para fins de intervenção teórica.


Victor Galdino é bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela UFRJ, formado em psicanálise pelo Corpo Freudiano - Escola de Psicanálise, e trabalha com Filosofia do Imaginário, Metafilosofia, Filosofia Política e Filosofia da Cultura. Seus textos mais recentes são “Por uma ontologia crítica do imaginário” (Revista de Filosofia Moderna e Contemporânea), “Aquilombamento Imaginal / Realismo Esclarecido” (a ser publicado em livro sobre filosofia brasileira pela Editora Filosófica Politeia) e “Três faíscas para uma imaginação política mais forte” (a ser publicado na coletânea “À imaginação revolucionária” da GLAC edições). Escreveu uma trilogia sobre quarentena e normalidade com Claudio Medeiros (publicada no Outras Palavras) e também escreve textos em seu blog pessoal na plataforma Medium.


Quinta-feira, 2 de julho

Silvia Federici: Mulheres, trabalho doméstico, capitalismo – quantas formas de queimar?

A primeira vítima de covid-19 no Rio de Janeiro foi uma empregada doméstica que contraiu o vírus de sua patroa – moradora do Leblon, bairro abastado da zona sul carioca –, que acabara de voltar da Itália. O trabalho da filósofa italiana radicada nos Estados Unidos, Silvia Federici, autora, entre outros, de Calibã e a bruxa, se mostra como uma importante referência para pensarmos a situação do trabalho doméstico nos dias de hoje e em como o capitalismo se desenvolveu às custas do trabalho doméstico feminino não remunerado. Partindo de Marx e, ao mesmo tempo, apontando os limites do marxismo, a filósofa vai a momentos históricos, como a Inquisição e ao recente movimento argentino "NiUnaMenos", nos fazendo refletir sobre os arraigados pilares de misoginia que estruturam o nosso mundo até hoje e ainda fazem as mulheres queimar. Federici nos mostra que a base do capitalismo também são as cinzas de milhões de mulheres

Danielle Magalhães é doutora em Teoria Literária pela UFRJ e formada em História pela UFF. Pesquisa a poesia brasileira contemporânea escrita por mulheres em interface com a filosofia e a política. Em fevereiro de 2020, defendeu a tese intitulada “Ir ao que queima: no verso, o amor, no verso, o horror – Ensaios sobre o verso e sobre alguma poesia brasileira contemporânea”. É autora do livro de poemas Quando o céu cair, publicado pela Editora 7Letras em 2018.


Terça-feira, 7 de julho

Derrida e a Universidade: estar no mundo que tentamos pensar


A aula visa apresentar o pensamento do filósofo franco-argelino Jacques Derrida em torno da Universidade a partir de uma conferência proferida por ele na Universidade de Stanford, intitulada “A universidade sem condição”. Para tanto, pretendemos apresentar brevemente o termo desconstrução, pelo qual ficou conhecido o pensamento derridiano, a fim de pensar a Universidade como lugar de resistência crítica, porém ao mesmo tempo mais do que crítica, uma vez que, mantendo um compromisso incondicional com a verdade, podendo dizer tudo, a Universidade tem a possibilidade e a tarefa de questionar o seu próprio lugar, o seu próprio fundamento.


Formado em Filosofia pelo IFCS-UFRJ, possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Tem interesse nos estudos de Filosofia Francesa Contemporânea, especialmente as obras de Jacques Derrida, Georges Bataille e Maurice Blanchot. Tem um livro publicado, “Escrever a mágoa: um cruzamento entre Nietzsche e Derrida”, e um artigo publicado na coletânea “Rosas e pensamentos outros”.